Discalculia

O que é?

O primeiro autor a introduzir o termo “discalculia do desenvolvimento”[1] foi Ladislav Kosc, em 1974, para diferenciá-lo da dificuldade matemática adquirida ao longo do período educacional por diversas possibilidades.
Butterworth (2005), importante pesquisador da área, entende a discalculia como um déficit seletivo e específico de uma capacidade para entendimento de números, que leva a uma ampla gama de dificuldades em aprendizado sobre números e aritmética.
A proposta de Butterworth é baseada na ideia de que as pessoas nascem com uma capacidade especializada de reconhecer e manipular mentalmente numerosidades (valores cardinais) e que há um circuito especializado de neurônios responsável por ela. O autor chama essa hipótese de Hipótese do Módulo Numérico Defeituoso (Defective Number Module Hypotesis).
A despeito do fato de pesquisadores (Geary et al., 2009; Mazzocco et al., 2011; Healy e Powell, 2013) terem utilizado diferentes termos e uma variedade de critérios para definir discalculia, existe um consenso sobre características básicas da discalculia. Em geral, pesquisadores concordam que crianças com discalculia possuem: 1. dificuldade para aprender fatos aritméticos e se lembrar deles, assim como para executar procedimentos de cálculos. 2. Discalcúlicos dependem muito mais de “estratégias imaturas” como contar nos dedos para resolução de um problema[2]. 3. A maior parte de crianças discalcúlicas apresenta problemas com o conhecimento de fatos e de procedimentos aritméticos. 4. Discalcúlicos possuem maior dificuldade em entender conceitos numéricos básicos, em especial os conceitos de numerosidade. Isso afeta o indivíduo até mesmo em uma variedade grande de tarefas como comparar magnitudes numéricas. 5. O tempo de reação em testes de contagem de pontos e de comparação numérica é maior em crianças discalcúlicas quando comparadas a não discalcúlicas. Vale lembrar que tarefas de contagem dependem muito pouco da experiência adquirida na educação formal, até mesmo pelo fato de crianças poderem executar essa atividade antes da entrada na escola.
 
Diagnóstico

Hoje, nos dois sistemas predominantes de classificação para doenças, CID[3] e DSM[4], há um código específico para distúrbios de aprendizagem ligados à matemática. Nos dois códigos, entretanto, o critério diagnóstico se dá apenas depois de se excluir uma série de causas tais como o ensino inadequado ou incorreto, os problemas de visão, audição ou os danos de doenças neurológicas e doenças psiquiátricas. Definições tradicionais (por exemplo, cf. DSM-IV, 1994) afirmam que a criança deve substancialmente desempenhar mal em um teste padronizado em relação ao nível esperado, dadas a idade, educação e inteligência, e deve experimentar dificuldades no rendimento escolar ou vida diária para ser diagnosticada como discalcúlica.
 
Recomendações

A despeito das discussões acerca dos benefícios e malefícios da classificação, é inegável a importância do uso de recursos como esse para que haja possibilidades de identificação de uma dificuldade de aprendizado específica. Por outro lado, melhor ainda do que um sistema classificatório será o desenvolvimento de descrições de sequências de comportamentos envolvidos em atividades que envolvem números, em diferentes estágios do desenvolvimento.
 
Entender comportamentos e características da discalculia contribuirá para o desenvolvimento de melhores intervenções educacionais. Price a Ansari (2013) citam algumas ferramentas para o desenvolvimento de conceitos quantitativos como, por exemplo, os jogos “Number race”, “Graphogame” e “FASST Match”. No entanto, os autores declaram ser necessário detalhar como as dificuldades de competências básicas em matemática relacionam-se a conceitos mais complexos, como a aritmética.

 
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[1] Em inglês: “Developmental dyscalculia
[2]A estratégia de contagem nos dedos só pode ser considerada imatura se permanecer ao longo da aprendizagem.
[3]Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Seu alvo é criar uma fundaç ão padrão e estável universal para o desenvolvimento da ciência médica.
[4]Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, publicado pela Associação Americana dos Psiquiatras, (APA), sendo um de seus objetivos principais fornecer uma descrição exata de todos os sintomas médicos de modo que seja consultado por doutores ou profissionais de saúde para que possam fazer um diagnóstico correto. Apesar deesta nota informativa, reconhecem-se as limitações e dificuldades destas classificações, conforme apontadas, por exemplo, por Banaco, Zamignani, e Meyer, (2010).
 
Kosc, L. (1974). Developmental dyscalculia. Journal of Learning Disabilities, 7(3), 164-177.
 
Butterworth, B. (2005). The development of arithmetical abilities. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 46(1), 3-18.
Geary, D. C., Bailey, D. H., & Hoard, M. K. (2009). Predicting mathematical achievement and mathematical learning disability with a simple screening tool: The Number Sets Test. Journal of Psychoeducational Assessment, 27, 265-279.
 
Mazzocco, M. M., Feigenson, L., & Halberda, J. (2011). Impaired acuity of the approximate number system underlies mathematical learning disability (dyscalculia). Child development, 82(4), 1224-1237.
Healy, L., & Powell, A. B. (2013). Understanding and Overcoming “Disadvantage” in Learning Mathematics. In Third International Handbook of Mathematics Education (pp. 69-100). Springer New York.
 
American Psychiatric Association, & American Psychiatric Association. Task Force on DSM-IV. (1994). Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-IV. Amer Psychiatric Pub Inc.
 

Price, G. R. & Ansari, D. (2013). “Dyscalculia: characteristics, causes and treatments”. Numeracy. Vol. 6, Issue 1, Article 2. Available at: http://scholarcommons.usf.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1112&context=numeracy.